sexta-feira, 16 de outubro de 2026

A ESCALA HUMANA DA PROSPERIDADE

A ESCALA HUMANA DA PROSPERIDADE

170 anos de evidências sobre autonomia municipal, democracia direta e distribuição de riqueza na Suíça

Como pequenas comunidades, organizadas em redes de cooperação e defesa mútua, ajudaram a construir uma sociedade livre e próspera.

Período estatístico investigado: 1850–2020

Antecedentes históricos: formação da Confederação Suíça a partir do século XIII.

A pergunta que pode mudar nossa maneira de organizar a sociedade

Imagine uma cidade onde os moradores conhecem seus governantes, discutem pessoalmente os problemas da comunidade, decidem como gastar seus impostos e possuem instituições próprias para administrar os recursos locais.

Agora imagine o contrário: milhões de pessoas tentando influenciar um governo distante, controlado por representantes que elas encontram apenas pela televisão.

Qual dessas sociedades oferece melhores condições para que o povo controle o poder?

E qual teria maior capacidade de produzir prosperidade para a maioria, em vez de beneficiar principalmente pequenas elites?

Essas perguntas não são novas. Mas a Suíça oferece uma oportunidade extraordinária de investigá-las com dados reais.

Desde 1850, o país registra informações sobre seus municípios, suas populações e suas transformações econômicas e sociais.

Além disso, pesquisadores estudaram como as diferenças entre instituições democráticas suíças se relacionam com participação política, distribuição de renda, felicidade e gestão dos recursos naturais.

Mas existe um aspecto ainda mais antigo e fundamental.

A Confederação Suíça começou a se formar séculos antes do Estado federal moderno, por meio de alianças entre comunidades e territórios que assumiram compromissos de paz, cooperação e defesa mútua.

Portanto, a experiência suíça permite investigar quatro fundamentos de uma sociedade livre: a organização em escala humana, a democracia direta, a autonomia e a capacidade de defesa coletiva.

Este trabalho reúne essas evidências em linguagem acessível.

Não é uma nova pesquisa estatística sobre todos os moradores suíços. É uma síntese de dados históricos e estudos científicos publicados, acompanhada de uma proposta de investigação para identificar quais características das comunidades merecem ser reproduzidas.


CAPÍTULO 1 — Quando a Suíça era um país de pequenas comunidades

Em 1850, apenas dois anos depois da criação do Estado federal suíço moderno, o país possuía aproximadamente 2,39 milhões de habitantes distribuídos entre 3.205 municípios.

Isso representa uma média de apenas 747 habitantes por município.

A Suíça era uma sociedade formada predominantemente por pequenas unidades municipais.

Com o passar dos anos, sua população aumentou, as cidades cresceram e muitos municípios foram unidos.

A transformação em números

AnoPopulação suíçaMunicípiosMédia de habitantes
18502.392.7403.205747
19003.315.4433.1641.048
20007.288.0102.8962.517
20208.667.1002.2023.936

Fontes: Escritório Federal de Estatística da Suíça (BFS), Dicionário Histórico da Suíça e Swissinfo. Médias calculadas pela divisão da população pelo número de municípios. O valor de 2020 é aproximativo como média anual, pois combina a contagem municipal de 1º de janeiro com a população de 31 de dezembro. Pequenas diferenças entre séries decorrem também das datas e critérios de contagem.

Mas a média esconde um fato ainda mais impressionante.

No ano de 1900, 75,9% dos municípios suíços tinham menos de 1.000 habitantes.

Em 2000, essa proporção havia caído para 54,4%.

E a população que vivia nesses municípios passou de aproximadamente 28,6% para apenas 9,1% do total nacional.

Isso significa que a Suíça foi deixando de ser uma sociedade em que uma parcela importante dos habitantes vivia em pequenos municípios, embora muitas dessas unidades tenham permanecido.

O que essa transformação nos ensina?

O crescimento populacional e econômico não exige que os municípios desapareçam. Mas a industrialização, a urbanização e as fusões administrativas modificam profundamente sua dimensão.

A pergunta principal não é se os municípios devem permanecer pequenos para sempre.

É outra:

Quando as comunidades crescem, como preservar as condições de participação, confiança e fiscalização que existiam quando eram menores?

Essa é uma questão central para qualquer projeto que pretenda construir uma sociedade de baixo para cima.


CAPÍTULO 2 — Existe um tamanho natural para uma comunidade humana?

O antropólogo e psicólogo evolucionista Robin Dunbar ficou conhecido por suas pesquisas sobre o tamanho das redes de relações humanas.

Seus estudos identificaram agrupamentos aproximados de 5, 15, 50 e 150 relacionamentos, além de círculos sociais ampliados que podem alcançar centenas ou mais de mil pessoas.

A ideia básica é simples.

Ninguém consegue manter relações pessoais próximas com milhares de indivíduos ao mesmo tempo.

Em pequenos grupos, conhecemos as pessoas, sua reputação, seus compromissos e seus comportamentos.

Em grupos maiores, precisamos confiar cada vez mais em regras, administradores, documentos, representantes e instituições.

Isso não é necessariamente ruim.

O problema surge quando esses intermediários passam a concentrar o poder que deveriam apenas administrar.

A faixa de 50 a 1.500 pessoas

Podemos utilizar essa faixa como referência para investigar a organização de comunidades de escala humana.

Mas ela não deve ser confundida com uma lei biológica.

Não existe demonstração científica de que uma comunidade com 1.499 pessoas seja naturalmente democrática e outra com 1.501 esteja condenada à oligarquia.

Cultura, religião, relações familiares, geografia, economia, história e organização institucional podem modificar completamente os resultados.

Uma comunidade agrícola isolada nos Alpes pode funcionar de maneira muito diferente de um bairro urbano com a mesma população.

A lição científica não é fixar um número universal.

É reconhecer que o tamanho influencia a maneira como as pessoas cooperam, fiscalizam e governam.

O risco de perder a organização natural

Quando a comunidade cresce, podem aparecer dificuldades progressivas.

As pessoas deixam de se conhecer pessoalmente.

A confiança passa a depender mais de instituições impessoais.

A fiscalização das lideranças torna-se mais difícil.

Surgem intermediários responsáveis por administrar recursos e decisões.

Esses intermediários podem adquirir interesses diferentes dos interesses da comunidade.

É nesse ponto que a democracia precisa de instituições capazes de impedir a formação de oligarquias.

O objetivo não deve ser impedir que grandes sociedades existam.

Deve ser preservar as unidades menores que permitem às pessoas participar efetivamente da vida coletiva.

Uma sociedade de milhões de habitantes pode continuar organizada como uma rede de comunidades de escala humana.


CAPÍTULO 3 — Uma pequena comuna suíça que chamou a atenção de cientistas do mundo inteiro

Nas montanhas do cantão de Valais existe uma comuna chamada Törbel.

Ela se tornou um dos exemplos mais conhecidos de organização comunitária estudados pela antropologia econômica.

Em 1851, possuía aproximadamente 520 habitantes. Em 1915, cerca de 620.

Durante séculos, seus moradores utilizaram pastagens, florestas e sistemas de irrigação sujeitos a regras coletivas.

Existem registros dessas instituições comunitárias desde pelo menos 1483.

O que torna essa experiência interessante não é apenas a existência de recursos compartilhados.

É a maneira como os moradores organizaram seu uso.

Havia regras sobre quem podia utilizar determinados bens, como preservar os recursos e quais responsabilidades cabiam aos participantes.

A desigualdade dentro da comunidade

Em 1982, Randall McGuire e Robert McC. Netting publicaram um estudo sobre a distribuição de propriedades agrícolas e imóveis em Törbel entre 1851 e 1915.

Os pesquisadores utilizaram registros tributários históricos para calcular índices de desigualdade.

O instrumento utilizado foi o índice de Gini.

Em termos simples, quanto mais próximo de zero, mais igualmente está distribuída a riqueza medida. Quanto mais próximo de um, maior a concentração.

AnoHabitantes estimadosGini das propriedades
18515200,469
18705650,415
18956100,495
19005930,340
19156200,414

Fonte: McGuire e Netting, 1982, tabela 2. Os índices medem bens imóveis e terras registrados em nome de contribuintes, não a renda de todos os habitantes. A queda de 1895 para 1900 pode ter sido influenciada por alterações administrativas no registro dos contribuintes.

Ao longo de todo o período, os coeficientes oscilaram entre 0,340 e 0,495.

Os pesquisadores também encontraram que os 10% de contribuintes mais ricos controlavam aproximadamente 30% da riqueza medida, enquanto a metade menos rica possuía entre 18% e 20%.

Na comparação utilizada pelos autores, Törbel apresentava desigualdade patrimonial relativamente baixa.

Não era uma comunidade em que todos possuíam a mesma riqueza.

Mas também não era uma sociedade dominada por um punhado de grandes proprietários.

Por que a desigualdade era relativamente pequena?

Os pesquisadores identificaram vários fatores:

  • Herança repartida entre os descendentes.

  • Limitações naturais à concentração produtiva.

  • Baixa rentabilidade de grandes investimentos em terras locais.

  • Possibilidade de crédito comunitário.

  • Instituições políticas locais democráticas.

Essa combinação é importante.

A relativa igualdade não foi explicada por um único mecanismo político, mas pela interação entre instituições comunitárias, regras de propriedade, condições econômicas e limites ambientais.

Também havia mobilidade patrimonial entre gerações: a posição econômica das famílias não permanecia necessariamente congelada.

Não podemos afirmar que a democracia direta, sozinha, produziu esse resultado.

Mas a pesquisa oferece um exemplo real de comunidade pequena na qual a organização econômica e a estrutura política ajudavam a limitar grandes desigualdades.


CAPÍTULO 4 — A descoberta de Elinor Ostrom: o povo pode administrar seus próprios recursos

Durante muito tempo, uma discussão importante da economia dizia respeito à administração dos bens de uso coletivo.

Imagine uma pastagem utilizada por vários criadores.

Se cada um colocar animais em excesso, todos podem acabar destruindo o pasto.

Uma solução seria entregar tudo a um proprietário particular.

Outra seria colocar a área sob administração estatal.

A pesquisadora Elinor Ostrom demonstrou que existia uma terceira possibilidade: os próprios usuários podiam criar instituições eficientes para administrar os recursos comuns.

Ostrom recebeu o Prêmio de Ciências Econômicas de 2009 por sua contribuição ao estudo da governança econômica.

Törbel tornou-se um dos casos clássicos de sua obra Governing the Commons, publicada em 1990.

Ela identificou características presentes em diversas experiências bem-sucedidas de autogestão.

Entre elas estavam regras adaptadas à realidade local, participação dos usuários nas decisões, fiscalização, sanções proporcionais e mecanismos acessíveis de resolução de conflitos.

O que isso significa na prática?

Imagine moradores que decidem conjuntamente como administrar:

  • Uma área de produção agrícola comunitária.

  • Um sistema coletivo de abastecimento de água.

  • Uma cooperativa de energia.

  • Uma floresta explorada de maneira sustentável.

  • Equipamentos compartilhados.

  • Serviços comunitários organizados voluntariamente.

Se a comunidade possui regras claras, informações transparentes e meios de responsabilizar os participantes, ela pode administrar esses recursos sem depender de ordens constantes de autoridades distantes.

Isso não significa que toda administração comunitária funcione bem.

Ostrom também encontrou experiências que fracassaram.

Seu grande ensinamento é que as instituições devem combinar com as características das pessoas, dos recursos e do ambiente em que operam.

Para uma comunidade construir prosperidade, não basta possuir recursos naturais.

É necessário organizá-los adequadamente.


CAPÍTULO 5 — A democracia direta pode reduzir a desigualdade?

Aqui encontramos uma das evidências mais interessantes de toda a pesquisa.

Em 2021, os economistas Christian Frey e Christoph Schaltegger publicaram um estudo sobre democracia direta e distribuição de renda nos 26 cantões suíços.

Eles analisaram dados de 1945 a 2014, observando mudanças nas regras que permitiam aos cidadãos apresentar iniciativas populares e convocar referendos.

O resultado não foi simplesmente que toda votação direta produzia maior igualdade.

Os pesquisadores encontraram algo mais específico.

Quando ficou mais fácil para os cidadãos apresentar iniciativas populares, houve mudanças nas políticas associadas à redução da participação dos rendimentos mais altos na renda total, beneficiando especialmente a classe média-alta.

O mesmo efeito não foi identificado para os referendos populares.

Isso mostra que diferentes instrumentos de democracia direta podem produzir resultados diferentes.

A descoberta mais surpreendente

A mudança não foi explicada principalmente por governos cobrando mais impostos dos ricos para distribuir dinheiro aos demais.

Os efeitos apareceram sobretudo na distribuição de renda antes da tributação.

Em outras palavras, os instrumentos de participação popular podem influenciar as próprias regras econômicas que determinam como a renda é gerada e distribuída.

Esse resultado merece atenção especial.

A justiça social não precisa ser entendida exclusivamente como a distribuição posterior de benefícios pelos governos.

Ela também pode depender das instituições que organizam as oportunidades econômicas.

Entretanto, o estudo não demonstra que todas as camadas pobres tenham sido beneficiadas igualmente, nem que qualquer ampliação da democracia direta gere os mesmos efeitos.


CAPÍTULO 6 — Municípios pequenos favorecem a participação do povo?

Em 2002, o cientista político Andreas Ladner publicou um estudo sobre a relação entre tamanho municipal e democracia direta na Suíça.

Ele identificou diferenças importantes.

Os municípios menores tendiam a utilizar assembleias populares como instituições de decisão.

Os maiores frequentemente utilizavam parlamentos municipais.

A pesquisa verificou que o comparecimento às assembleias e a participação nas eleições diminuíam conforme aumentava o tamanho dos municípios.

Por outro lado, iniciativas e referendos podiam ser mais utilizados nos municípios maiores.

Isso sugere que, conforme as comunidades crescem, a democracia direta precisa se adaptar.

E o que acontece quando municípios são fundidos?

Um estudo publicado por Philippe Koch e Philippe E. Rochat em 2017 examinou fusões municipais suíças e seus efeitos eleitorais.

Os pesquisadores encontraram uma redução de participação eleitoral mais acentuada nos municípios fundidos do que nos não fundidos.

O efeito foi particularmente perceptível em localidades menores e após a primeira fusão.

Isso não significa que todas as fusões sejam prejudiciais.

Um município maior pode melhorar a prestação de serviços, reunir recursos técnicos e reduzir certas dificuldades administrativas.

Mas as evidências indicam que existe um possível custo democrático quando as comunidades perdem suas estruturas políticas próprias.

A economia de recursos administrativos precisa ser comparada com o custo da perda de participação e proximidade política.


CAPÍTULO 7 — Quando os cidadãos participam, vivem melhor?

A prosperidade não se mede apenas pelo dinheiro.

Também importa saber se as pessoas estão satisfeitas com suas vidas.

Os economistas Bruno Frey e Alois Stutzer investigaram essa relação em pesquisas publicadas em 2000.

Uma dessas análises utilizou informações de aproximadamente 6.000 pessoas na Suíça.

Os pesquisadores compararam o bem-estar declarado pelos cidadãos com as instituições democráticas de seus cantões.

Encontraram uma associação positiva entre direitos mais desenvolvidos de participação direta e satisfação com a vida.

Parte desse resultado parecia estar relacionada à possibilidade de influenciar decisões políticas.

Isso é interessante porque sugere que a participação democrática pode possuir valor para as pessoas além dos resultados econômicos.

As pessoas não desejam apenas receber serviços.

Também podem valorizar a oportunidade de decidir os rumos da comunidade em que vivem.

Ainda assim, pesquisas de satisfação não demonstram que a democracia direta, isoladamente, seja responsável por toda a diferença observada.

A conclusão mais segura é que existe evidência de uma relação positiva entre instituições participativas e bem-estar declarado.


CAPÍTULO 8 — A riqueza natural pode beneficiar diretamente os moradores?

A Suíça oferece exemplos concretos de aproveitamento econômico dos recursos locais.

Um estudo publicado em 2023 por Patrick Leisibach, Simon Luechinger, Jonas Röllin e Christoph Schaltegger analisou receitas provenientes da produção hidrelétrica.

A pesquisa acompanhou dados de 235 municípios dos cantões de Valais e Grisões, em períodos compreendidos entre 1987 e 2015.

Alguns desses municípios recebem pagamentos pela exploração econômica dos recursos hídricos.

O que os números revelaram?

Em 2015, essas receitas representavam, em média, 6,6% das receitas municipais analisadas.

Mas em algumas localidades ultrapassavam 50% das receitas totais.

Os pesquisadores encontraram que o aumento das receitas provenientes da água provocava reduções nas alíquotas e na arrecadação tributária municipal.

Não encontraram, porém, um aumento estatisticamente significativo das despesas públicas.

O resultado é importante porque demonstra uma possibilidade real:

A riqueza produzida por um recurso natural local pode aliviar a carga tributária dos moradores, em vez de simplesmente ampliar os gastos públicos.

O estudo também descreve municípios que utilizam essas receitas para infraestrutura e benefícios locais.

Isso não significa que todos os moradores recebam necessariamente parcelas iguais, nem que a presença de recursos naturais garanta prosperidade.

Mas demonstra que o desenho dos direitos econômicos e das receitas municipais influencia diretamente a maneira como os benefícios podem chegar à população.


CAPÍTULO 9 — O cuidado necessário: descentralizar demais também pode trazer problemas

Outro estudo publicado em 2021 analisou a relação entre descentralização tributária e desigualdade de renda nos cantões suíços entre 1945 e 2014.

Os autores foram Lars Feld, Christian Frey, Christoph Schaltegger e Lukas Schmid.

Eles encontraram que a descentralização tributária tendia a reduzir a desigualdade de renda quando a fragmentação das jurisdições permanecia limitada.

Entretanto, acima de determinado nível de fragmentação, os resultados podiam se inverter.

Essa descoberta é fundamental.

Criar centenas de administrações pequenas e isoladas não garante eficiência, igualdade ou prosperidade.

Uma comunidade pode ser pequena demais para manter determinados serviços, contratar profissionais especializados ou realizar investimentos de grande escala.

Por isso, a solução não precisa ser escolher entre dois extremos:

Um governo central que concentra todas as decisões ou milhares de comunidades incapazes de cooperar.

Existe uma alternativa.

Comunidades pequenas podem conservar suas instituições democráticas e compartilhar estruturas administrativas, serviços e investimentos quando isso for vantajoso.

É a combinação entre autogoverno local e cooperação federativa.

Essa possibilidade se aproxima do conceito de governança policêntrica desenvolvido por Elinor Ostrom.


CAPÍTULO 10 — A AUTODEFESA: O PILAR QUE AJUDOU A CRIAR A CONFEDERAÇÃO SUÍÇA

Antes de existir um país, existiam pactos entre comunidades dispostas a se proteger mutuamente.

Quando pensamos na Suíça, lembramos de democracia direta, autonomia municipal, neutralidade e prosperidade.

Mas existe um fundamento decisivo de sua história que precisa receber a mesma atenção.

A antiga Confederação Suíça se desenvolveu a partir de alianças entre comunidades e territórios que assumiram compromissos de paz, cooperação e defesa mútua.

Não foi um governo nacional suíço que criou inicialmente aquelas alianças e concedeu autonomia aos seus participantes.

Foram comunidades rurais, cidades e territórios que estabeleceram acordos para proteger interesses comuns, preservar direitos, resolver conflitos e enfrentar ameaças.

Esse processo ocorreu em uma Europa marcada por monarquias, aristocracias, disputas dinásticas e estruturas feudais.

Não eram comunidades inteiramente livres ou iguais no sentido moderno. Mas seus pactos criaram instituições de cooperação que contribuíram para a formação de uma ordem política distinta.

10.1 — O Pacto Federal de 1291: a defesa mútua estava escrita no documento

O mais conhecido dos documentos fundadores da antiga Confederação é o Pacto Federal datado de agosto de 1291, chamado Bundesbrief.

O documento registra compromissos entre as comunidades alpinas de Uri, Schwyz e Nidwalden, integrante de Unterwalden.

Seu conteúdo é revelador.

As comunidades prometiam auxiliar umas às outras contra agressões e injustiças.

Esse auxílio deveria ser prestado com os recursos disponíveis, inclusive diante de ataques contra pessoas e bens.

O compromisso não se limitava a uma declaração de amizade.

Era um acordo de assistência concreta.

O texto também estabelecia regras sobre a administração da justiça, rejeitava juízes que comprassem seus cargos e previa formas de resolver disputas entre os próprios aliados.

Havia, portanto, dois objetivos inseparáveis:

Preservar a paz entre as comunidades e protegê-las contra ameaças.

Outro detalhe merece atenção.

O documento afirma renovar uma aliança anterior.

Isso indica que a cooperação entre aquelas comunidades já possuía antecedentes, embora sua origem exata não seja conhecida.

A própria datação do documento é discutida. Alguns historiadores, como Roger Sablonier, apresentaram argumentos de que ele pode ter sido redigido por volta de 1309 e retrodatado.

O documento também preservava obrigações feudais existentes. Não proclamava uma independência nacional moderna.

Mesmo com essas ressalvas, permanece seu significado histórico fundamental: comunidades estavam formalizando obrigações de paz, assistência e proteção recíproca.

10.2 — Morgarten, 1315: comunidades que conseguiam enfrentar forças maiores

Durante os séculos XIII e XIV, os territórios alpinos enfrentavam disputas envolvendo direitos, propriedades, rotas comerciais e autoridades ligadas à Casa de Habsburgo.

Em 15 de novembro de 1315 ocorreu a Batalha de Morgarten.

Forças das comunidades confederadas derrotaram tropas comandadas pelo duque Leopoldo I da Áustria.

A vitória tornou-se um marco da história suíça.

É necessário distinguir o combate documentado das narrativas heroicas construídas posteriormente.

Os números exatos de combatentes, sua disposição no terreno e diversos detalhes táticos permanecem discutidos.

Mas o significado político foi considerável.

Territórios relativamente pequenos conseguiram organizar forças e enfrentar adversários vinculados a estruturas dinásticas poderosas.

A defesa não dependia exclusivamente de um exército profissional separado da sociedade.

Homens provenientes das comunidades locais participavam das forças de combate, embora as formas de recrutamento, equipamento e comando variassem.

A experiência fortaleceu a reputação militar dos confederados.

E demonstrou que pequenas comunidades, quando coordenadas, podiam adquirir uma capacidade de resistência muito maior do que teriam isoladamente.

10.3 — O Pacto de Brunnen: a vitória militar foi transformada em compromisso permanente

Em 9 de dezembro de 1315, poucas semanas depois de Morgarten, representantes de Uri, Schwyz e Unterwalden reafirmaram sua aliança no Pacto de Brunnen.

Esse acordo fortaleceu os compromissos de assistência mútua.

Também estabeleceu regras para a coordenação política e para certas relações com autoridades e aliados externos.

O Pacto de Brunnen possui importância especial porque demonstra a passagem da cooperação circunstancial para compromissos institucionais mais duradouros.

Uma vitória militar, por si só, não constitui uma confederação.

Para preservar a capacidade de cooperação, as comunidades precisavam manter acordos que continuassem funcionando depois do conflito.

A grande inovação institucional estava em combinar duas características:

Cada território conservava sua organização própria, mas aceitava obrigações comuns perante os demais.

Isso representava uma forma de união política sem a necessidade de concentrar toda a administração cotidiana em um único governo.

Naturalmente, a aliança também impunha limites à liberdade de ação de cada participante.

Os compromissos externos e as obrigações de defesa não podiam ser ignorados individualmente sem colocar em risco os demais aliados.

A autonomia, portanto, coexistia com responsabilidades compartilhadas.

10.4 — A Confederação cresceu pela formação de novas alianças

A experiência iniciada nas comunidades alpinas não terminou ali.

Ao longo do século XIV, a rede confederativa se ampliou.

Em 1332, Lucerna estabeleceu uma aliança com os primeiros territórios.

Em 1351, Zurique integrou-se à rede.

Em 1352, ocorreram as adesões de Glarus e Zug.

Em 1353, Berna passou a participar dessa estrutura de alianças.

Formou-se o conjunto tradicionalmente conhecido como Confederação dos Oito Cantões.

Não existia ainda um Estado federal moderno.

Os participantes estavam ligados por acordos diferentes, com obrigações que nem sempre eram iguais.

Havia comunidades rurais, cidades governadas por elites e territórios submetidos a relações políticas distintas.

Entretanto, a defesa conjunta permanecia um elemento essencial de sua cooperação.

As alianças permitiam solicitar auxílio militar, reunir contingentes e coordenar ações diante de ameaças.

Em 1386, forças confederadas derrotaram tropas do duque Leopoldo III da Áustria na Batalha de Sempach.

No século XV, as campanhas contra a Borgonha fortaleceram novamente sua posição militar e diplomática.

A expansão também envolveu interesses comerciais, conquistas e dominação sobre territórios subordinados.

Por isso, seria incorreto descrever toda a formação suíça como uma associação pacífica e igualitária entre comunidades inteiramente livres.

Mas a documentação histórica permite reconhecer um fato central:

A capacidade de prestar defesa mútua foi decisiva para a consolidação e a sobrevivência política da antiga Confederação.

10.5 — O princípio suíço: o cidadão também participa das responsabilidades públicas

A tradição suíça desenvolveu uma relação particular entre cidadania, participação política e prestação de serviços à comunidade.

Essa tradição é conhecida como Milizsystem, ou princípio de milícia.

Seu significado é mais amplo do que a organização militar.

O Museu Nacional Suíço explica que a ideia de milícia se estendeu à participação de cidadãos comuns em funções públicas, políticas e administrativas.

O princípio parte da noção de que as responsabilidades coletivas não precisam pertencer exclusivamente a uma classe permanente de profissionais.

Os cidadãos podem assumir temporariamente funções públicas, exercer responsabilidades comunitárias e participar da administração das instituições.

Na área militar, essa tradição conserva a ligação entre a sociedade civil e a defesa.

Na organização política, relaciona-se à participação em cargos e atividades públicas.

O historiador René Roca, em estudo divulgado pelo Museu Nacional Suíço, identifica essa cultura cívica como uma característica importante do republicanismo suíço.

Ela também chamou a atenção de pensadores políticos.

Nicolau Maquiavel destacou a ligação entre a capacidade militar dos suíços e sua liberdade.

Jean-Jacques Rousseau, posteriormente, defendeu a importância de forças compostas por cidadãos na organização dos Estados livres.

A ideia central não é que armas produzam automaticamente liberdade.

É que a cidadania também envolve responsabilidades pela preservação das instituições coletivas.

O povo que participa do governo de sua comunidade também precisa possuir instituições capazes de protegê-la.

10.6 — Da antiga Confederação à Constituição moderna

A Suíça moderna surgiu como Estado federal em 1848.

O novo Estado reuniu sob instituições nacionais territórios que possuíam uma longa história de autonomia e cooperação.

A Constituição de 1848 estabeleceu o serviço militar obrigatório e restringiu a manutenção de forças militares permanentes pelo governo federal.

A Constituição de 1874 preservou elementos dessa tradição.

Em 1999, o princípio militar de milícia passou a constar expressamente do texto constitucional.

O artigo 58 da Constituição suíça estabelece que o país possui Forças Armadas organizadas, em princípio, segundo o sistema de milícia.

Isso não significa que cada cidadão forme uma força militar independente.

As Forças Armadas suíças são instituições públicas nacionais, submetidas à Constituição, às autoridades civis e às leis.

A organização militar atual é muito diferente daquela da Idade Média.

Mas a tradição mantém uma concepção importante:

A defesa da sociedade não deve ser confundida com a propriedade pessoal da força por um governante ou uma facção.

10.7 — A relação entre autodefesa, liberdade e prosperidade

A história suíça oferece uma demonstração convincente da importância dos pactos defensivos para a formação e a consolidação da antiga Confederação.

Mas precisamos distinguir isso de outra afirmação: a ideia de que milícias cidadãs produzem diretamente maior riqueza ou igualdade econômica.

Os estudos econômicos reunidos neste trabalho não demonstram essa relação causal.

Não podemos afirmar que uma comuna ficou mais rica simplesmente porque seus habitantes participavam de sua defesa.

Entretanto, segurança, estabilidade institucional e capacidade de proteger acordos são condições importantes para o funcionamento da economia.

Uma comunidade que consegue preservar suas instituições possui melhores condições de planejar investimentos, administrar recursos e desenvolver atividades de longo prazo.

Os pactos defensivos também criavam oportunidades de cooperação política mais ampla.

Eles permitiam que territórios preservassem parte de sua autonomia sem permanecer completamente isolados.

Dessa forma, a defesa mútua ajudou a construir as condições institucionais que permitiram a continuidade e o desenvolvimento da Confederação.

A prosperidade suíça posterior resultou igualmente de educação, inovação, comércio, indústria, instituições financeiras e inúmeras transformações econômicas.

Seria incorreto atribuir todo esse desenvolvimento à organização militar.

Mas seria igualmente equivocado retirar a defesa mútua da explicação histórica da formação suíça.

10.8 — A grande lição para uma sociedade de municípios livres

O exemplo suíço mostra que comunidades relativamente pequenas podem se unir para enfrentar problemas superiores à sua capacidade individual.

Isso vale para a defesa, mas também pode valer para infraestrutura, serviços públicos, administração de recursos e cooperação econômica.

A união não precisa significar a absorção de todas as decisões locais por um governo central.

É possível construir instituições comuns e preservar competências próprias de cada comunidade.

No campo da defesa, entretanto, essa organização deve respeitar o Estado de Direito, o controle civil e os direitos fundamentais.

A experiência histórica não justifica a criação de forças armadas particulares ou grupos que atuem fora da legalidade.

Seu ensinamento institucional mais importante é a combinação entre responsabilidade comunitária, capacidade de cooperação e compromisso constitucional.

A antiga Confederação Suíça não surgiu apenas porque algumas comunidades desejavam ser livres. Sua formação também dependeu da capacidade dessas comunidades de se organizar, assumir compromissos recíprocos e defender conjuntamente seus interesses.

Essa é uma lição fundamental para o municipalismo.

A autonomia precisa ser acompanhada de instituições capazes de protegê-la.

A liberdade não deve depender exclusivamente da boa vontade de autoridades distantes.

E a cooperação entre comunidades pode multiplicar sua capacidade de preservar direitos e resolver problemas comuns.


CAPÍTULO 11 — O que os 170 anos de evidências realmente demonstram?

O conjunto dos estudos permite chegar a algumas conclusões importantes.

Questão investigadaO que encontramos
Comunidades pequenas favorecem participação?Evidências positivas, especialmente em assembleias
Democracia direta pode influenciar a distribuição de renda?Sim, com resultados diferentes entre iniciativas e referendos
Autonomia fiscal pode diminuir desigualdade?Sim, em determinadas condições de fragmentação territorial
Comunidades conseguem administrar recursos comuns?Sim, com regras e instituições adequadas
Recursos naturais podem beneficiar financeiramente moradores?Sim, inclusive pela redução de impostos
A defesa mútua foi importante na formação da Confederação Suíça?Sim, existem pactos e registros históricos que demonstram seu papel fundamental
O princípio de milícia permanece na tradição constitucional suíça?Sim, com previsão expressa na Constituição de 1999
Comunas menores são sempre mais prósperas?Não demonstrado
Existe tamanho municipal ideal universal?Não demonstrado
Milícias cidadãs geram maior igualdade econômica?Não demonstrado

A conclusão principal

A prosperidade suíça não pode ser atribuída a um único fator.

O país passou por industrialização, inovação tecnológica, expansão da educação, desenvolvimento financeiro, integração comercial, melhorias sanitárias e profundas transformações institucionais.

Entretanto, as pesquisas mostram que a maneira como as comunidades organizam suas decisões, distribuem competências e administram recursos também importa.

A democracia direta pode influenciar a distribuição de renda.

A autonomia local pode favorecer determinados resultados econômicos.

As comunidades podem administrar recursos naturais de maneira duradoura.

O tamanho municipal pode influenciar a participação política.

E a capacidade de defesa mútua desempenhou um papel histórico fundamental na formação e consolidação da Confederação.

Esses elementos não devem ser confundidos.

Cada um cumpre uma função diferente na organização da sociedade.

A escala humana favorece determinadas formas de organização e participação.

A democracia direta permite aos cidadãos conservar instrumentos efetivos de decisão.

A autonomia e a autogestão distribuem competências e responsabilidades entre comunidades e governos.

A autodefesa constitucional e a cooperação confederativa ajudam a preservar essas instituições diante de ameaças.

Nenhum desses elementos, isoladamente, garante uma sociedade próspera.

Mas sua combinação oferece uma arquitetura institucional que merece ser estudada e experimentada.

A descoberta não é que a prosperidade exige municípios minúsculos.

É que sociedades grandes não precisam eliminar suas comunidades de escala humana para se desenvolver.

E que essas comunidades podem se unir para enfrentar problemas maiores sem necessariamente abandonar sua capacidade de autogoverno.


CAPÍTULO 12 — Uma proposta para as Ilhas de Prosperidade

O Movimento O Sul é o Meu País pode transformar essas lições em uma proposta prática.

Em vez de começar exigindo uma reorganização imediata de todas as fronteiras municipais, seria possível começar fortalecendo as comunidades já existentes.

Associações de moradores, condomínios, bairros, cooperativas e pequenos municípios podem funcionar como laboratórios de autogoverno.

O objetivo seria desenvolver quatro capacidades fundamentais.

1. Organização em escala humana

Criar unidades comunitárias nas quais os moradores possam se conhecer, conversar, cooperar e fiscalizar as decisões.

A faixa de 50 a 1.500 pessoas pode servir como hipótese inicial de organização, ajustada à realidade local, sem ser transformada em limite obrigatório.

Municípios maiores poderiam preservar suas próprias células comunitárias por meio de bairros, associações, distritos e instituições participativas.

O importante seria impedir que o crescimento das estruturas políticas tornasse o cidadão incapaz de acompanhar e influenciar as decisões.

2. Democracia direta permanente

Permitir que os moradores proponham soluções, debatam, votem, fiscalizem projetos e acompanhem resultados.

Ferramentas digitais como o VotaFlow poderiam ser utilizadas para ampliar a participação, desde que existam segurança, transparência, acessibilidade e regras confiáveis.

A eleição de representantes continuaria tendo funções importantes.

Mas os cidadãos conservariam instrumentos para controlar decisões, fiscalizar gastos e participar diretamente de assuntos coletivos.

3. Autonomia e prosperidade econômica

Promover compras coletivas, cooperativas, mutirões, aproveitamento responsável de recursos, produção local, economia compartilhada e redução de despesas comunitárias.

Cada iniciativa deveria possuir custos, metas e resultados mensuráveis.

A autonomia não significaria isolamento.

Comunidades e municípios poderiam formar consórcios, cooperativas e instituições compartilhadas para executar atividades que exigissem maior escala.

A experiência suíça sugere que a administração local de recursos e a cooperação entre territórios podem oferecer benefícios concretos, dependendo da qualidade das instituições.

4. Proteção das liberdades e cooperação para a defesa

Desenvolver mecanismos permanentes para proteger a autonomia comunitária, os direitos individuais e a integridade das instituições.

Isso inclui transparência, controle dos administradores, prestação de contas, resolução pacífica de conflitos e fiscalização pública.

Também significa estimular a cooperação entre comunidades para fortalecer sua capacidade de proteção coletiva.

Na prática, essa cooperação pode envolver prevenção de riscos, defesa civil, assistência recíproca, preparação para emergências, proteção legal de direitos comunitários e participação cidadã nas instituições públicas de segurança e defesa.

Tudo isso deve funcionar dentro da legalidade e sob controle democrático.

A tradição suíça de pactos defensivos oferece uma referência histórica para compreender a importância da ajuda mútua e da responsabilidade compartilhada.

Uma comunidade livre não deve permanecer isolada. Sua força aumenta quando coopera com outras comunidades igualmente autônomas.

Como descobrir se o projeto funciona?

Antes de afirmar que uma comunidade de 500 pessoas é mais próspera que uma de 5.000, podemos realizar experiências e medir resultados.

Um projeto-piloto poderia comparar comunidades semelhantes, observando:

IndicadorO que medir
ParticipaçãoPercentual de moradores envolvidos nas decisões
EconomiaRedução de despesas por família
ConfiançaPercepção de cooperação e transparência
ProsperidadeRenda, despesas essenciais e oportunidades criadas
IgualdadeDistribuição dos benefícios entre as famílias
GestãoCustos administrativos e resultados dos projetos
LiberdadeRespeito aos direitos individuais e às minorias
CooperaçãoNúmero de projetos e serviços compartilhados com outras comunidades
Proteção coletivaCapacidade de prevenção, resposta a emergências e preservação institucional

Esses resultados poderiam ser comparados antes e depois das iniciativas, e também com comunidades semelhantes que não participaram delas.

Somente assim seria possível verificar se o modelo realmente funciona e quais mecanismos produzem os melhores resultados.


CONCLUSÃO — A prosperidade deve começar onde o povo vive

A história suíça mostra que pequenas comunidades podem construir instituições duradouras de cooperação, administração de recursos, participação democrática e proteção mútua.

A pesquisa econômica moderna acrescenta evidências de que a autonomia e os instrumentos de democracia direta podem influenciar a distribuição de renda e o bem-estar.

Os registros históricos demonstram ainda que alianças de defesa foram fundamentais para a formação e a consolidação da antiga Confederação Suíça.

Mas a mesma história mostra que comunidades pequenas podem enfrentar pobreza, dificuldades administrativas e conflitos internos.

O tamanho importa, mas não resolve tudo.

A verdadeira força de uma sociedade livre parece depender da combinação entre comunidades organizadas, instituições democráticas, autonomia responsável, proteção das liberdades e capacidade de cooperação em escalas maiores.

Para o MSMP, isso sugere uma proposta que ultrapassa a simples alteração de fronteiras políticas.

Não se trata apenas de criar um novo país. Trata-se de criar condições para que as pessoas deixem de ser espectadoras de governos distantes e se tornem protagonistas da prosperidade de suas comunidades.

Uma sociedade pode possuir milhões de habitantes e continuar organizada a partir de comunidades humanas.

Pode compartilhar grandes infraestruturas sem entregar todas as decisões a um centro político.

Pode desenvolver instituições federativas sem destruir o autogoverno municipal.

Pode assumir responsabilidades comuns pela segurança e pela defesa sem abandonar o controle democrático sobre a força pública.

E pode produzir prosperidade sem exigir que os cidadãos entreguem toda a responsabilidade por suas vidas a uma pequena classe de governantes.

A experiência suíça oferece quatro lições fundamentais:

PRIMEIRA — A sociedade deve ser organizada em comunidades de escala humana.

A unidade básica do autogoverno deve preservar as relações de confiança, participação e fiscalização.

SEGUNDA — O povo deve conservar o poder de decidir.

A democracia direta permite que os cidadãos participem das decisões, e não apenas da escolha dos governantes.

TERCEIRA — As comunidades devem conservar sua autonomia e capacidade de autogestão.

Os governos maiores devem atuar naquilo que exige cooperação em escala superior, sem absorver desnecessariamente as competências locais.

QUARTA — A liberdade precisa de instituições capazes de protegê-la.

A história da Confederação Suíça mostra que comunidades relativamente pequenas conseguiram construir alianças duradouras porque desenvolveram compromissos de assistência, segurança e defesa mútua.

Esses quatro princípios não são sinônimos.

São funções complementares de uma mesma organização política.

A escala humana organiza a sociedade.

A democracia direta mantém o poder político nas mãos dos cidadãos.

A autonomia e a autogestão preservam as competências das comunidades.

A defesa e a cooperação constitucional protegem a continuidade dessas instituições.

A grande lição não é que o povo precisa de governantes melhores. É que precisa de instituições que lhe permitam governar melhor a si próprio.

A prosperidade deve começar onde o povo vive.

E uma sociedade livre pode ser construída de baixo para cima, pela cooperação entre comunidades capazes de governar a si próprias e de proteger conjuntamente suas liberdades.


FONTES E REFERÊNCIAS

Estatísticas e história suíça

  1. Escritório Federal de Estatística — Censos por comuna, 1850–2020. Base oficial histórica, com registros populacionais e demográficos.

  2. Dicionário Histórico da Suíça — Gemeinde. História dos municípios e distribuição por tamanho em 1900 e 2000.

  3. Dicionário Histórico — Fusões municipais. Evolução do número de municípios desde 1850.

  4. BFS — Atlas dos municípios suíços em 2020. Contagem oficial de 2.202 municípios.

  5. Swissinfo — Censo da população tem 150 anos. Dados demográficos de 1850.

  6. Escritório Federal de Estatística — População de 2020.

Comunidades, desigualdade e recursos naturais

  1. McGuire, Randall; Netting, Robert (1982). Leveling Peasants? The Maintenance of Equality in a Swiss Alpine Community. American Ethnologist, 9(2), 269–290.

  2. Swissinfo — Törbel inspira gestão de bens comuns há 500 anos.

  3. Ostrom, Elinor (1990). Governing the Commons: The Evolution of Institutions for Collective Action. Cambridge University Press.

  4. Leisibach, Patrick et al. (2023). The Effects of Natural Resource Revenues on Municipal Finance. Economic Policy.

Democracia direta, igualdade e bem-estar

  1. Ladner, Andreas (2002). Size and Direct Democracy at the Local Level: The Case of Switzerland. Environment and Planning C.

  2. Frey, Christian; Schaltegger, Christoph (2021). The Initiative, Referendum, and Distribution of Income. European Journal of Political Economy.

  3. Feld, Lars et al. (2021). Fiscal Federalism and Income Inequality: An Empirical Analysis for Switzerland. Journal of Economic Behavior & Organization.

  4. Frey, Bruno; Stutzer, Alois (2000). Happiness, Economy and Institutions. The Economic Journal.

  5. Koch, Philippe; Rochat, Philippe E. (2017). The Effects of Local Government Consolidation on Turnout. Swiss Political Science Review.

Formação histórica da Confederação e defesa mútua

  1. Governo Federal Suíço — O Pacto Federal de 1291. Texto e explicação oficial do documento que estabelece compromissos de assistência e paz entre comunidades alpinas.

  2. Governo Federal Suíço — Tradução integral do Pacto Federal. Tradução para o inglês do documento em latim.

  3. Museu Nacional Suíço — Uma nova análise das origens da Suíça. Estudo de Kurt Messmer sobre os pactos, a controvérsia da data de 1291 e o desenvolvimento gradual da Confederação.

  4. Universidade de Perpignan — Pacto de Brunnen, 1315. Tradução histórica do pacto de assistência e defesa.

  5. Museu Nacional Suíço — O sistema suíço de milícia. Artigo do historiador René Roca sobre a ligação entre o princípio de milícia, a defesa cidadã e a participação nas instituições públicas.

  6. Museu Nacional Suíço — A história das alabardas. Contexto histórico das armas utilizadas pelos combatentes suíços e referências às narrativas medievais.

  7. Constituição Federal da Suíça. Artigos 50 e 58, relativos à autonomia municipal e à organização constitucional das Forças Armadas.


Nota metodológica: as médias municipais foram calculadas com dados públicos históricos. Os resultados sobre desigualdade, felicidade, democracia direta e recursos naturais são provenientes de estudos científicos realizados com populações, períodos e métodos diferentes. A análise documental da formação medieval da Confederação utiliza fontes históricas e estudos historiográficos, não indicadores econômicos causais. As duas linhas de evidência devem permanecer distintas. A análise municipal completa de 1850–2020, incluindo desvio-padrão, mediana exata, renda e participação de cada comuna, ainda exigiria processamento e compatibilização dos microdados originais.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

As duas grandes lições do povo suíço para a prosperidade

As duas grandes lições do povo suíço para a prosperidade:

  1. O poder não deve ficar concentrado em poucas pessoas.
  2. O poder não deve ficar concentrado longe das comunidades.

O POVO DEVE GOVERNAR. E O GOVERNO DEVE COMEÇAR ONDE O POVO VIVE.

A GRANDE DESCOBERTA DOS SUÍÇOS FOI QUE A LIBERDADE DE UM POVO NÃO PODE DEPENDER DA HONESTIDADE DE SEUS GOVERNANTES!

O brasileiro costuma acreditar que a solução é colocar pessoas honestas no poder.

A experiência suíça ensina uma lição diferente:

O problema não é apenas quem está no poder. É quanto poder colocamos nas mãos de poucos!

Quem concentra poder vira alvo de dinheiro, pressão, ameaças e chantagens. Até uma pessoa honesta pode ser coagida.

A solução é distribuir o poder entre os cidadãos, para que controlar meia dúzia de políticos não seja suficiente para controlar milhões de pessoas.

Essa não foi uma descoberta única dos suíços, mas um princípio que eles desenvolveram e aperfeiçoaram durante séculos: distribuir o poder entre cidadãos e Confederação, em vez de concentrá-lo no topo. O próprio governo suíço apresenta a democracia direta, o municipalismo e o povo-exército como fundamentos de seu sistema.

A SEGUNDA GRANDE LIÇÃO DA SUÍÇA: A PÁTRIA NÃO COMEÇA NO PAÍS!

A pátria começa na família, cresce na comunidade e encontra no município sua principal expressão política.

É ali que vivemos, trabalhamos, criamos nossos filhos, conhecemos nossos vizinhos e construímos nossa prosperidade.

O MUNICÍPIO É A CÉLULA FUNDAMENTAL DA SOCIEDADE. É DELE QUE DEVE EMANAR O PODER POLÍTICO!

Essa é outra grande lição que podemos extrair da experiência suíça.

UMA SABEDORIA QUE NÃO FOI INVENTADA, MAS CULTIVADA DURANTE SÉCULOS

A tradição suíça de autogoverno comunitário não surgiu de uma teoria moderna.

Suas raízes estão nas antigas formas de organização das comunidades que habitavam aquele território, incluindo antecedentes entre os povos celtas e germânicos.

Durante a Idade Média, comunidades rurais desenvolveram instituições próprias para administrar pastagens, florestas, recursos naturais e assuntos coletivos.

Essas tradições foram sendo transformadas e aperfeiçoadas até dar origem às comunas e às instituições de democracia direta que conhecemos hoje.

A GRANDE SABEDORIA FOI PRESERVAR O PODER DAS COMUNIDADES, EM VEZ DE ENTREGAR TODAS AS DECISÕES A GOVERNANTES DISTANTES.

A ANTROPOLOGIA AJUDA A EXPLICAR POR QUÊ

Estudos de pesquisadores como Robin Dunbar e Christopher Boehm ajudam a compreender a importância das comunidades em escala humana.

Dunbar identificou padrões recorrentes de agrupamentos sociais próximos de 150, 500 e 1.500 pessoas.

Boehm estudou pequenas comunidades nas quais os próprios integrantes conseguiam impedir que indivíduos ou grupos dominassem os demais.

Essas pesquisas mostram que o tamanho das comunidades e suas formas de organização podem influenciar as relações de confiança, cooperação e controle das lideranças.

Em comunidades pequenas, as pessoas têm mais condições de se conhecer, acompanhar as decisões, fiscalizar os responsáveis e participar diretamente do governo.

QUANDO AS PESSOAS SE CONHECEM E PARTICIPAM, FICA MAIS DIFÍCIL TRANSFORMÁ-LAS EM SIMPLES SÚDITOS DE UMA ELITE POLÍTICA.

Isso não significa que exista um limite científico exato de habitantes que garanta igualdade ou prosperidade. Significa que a escala humana é uma característica importante a considerar na organização do autogoverno.

A experiência das pequenas comunas suíças mostra o valor dessa proximidade. Não por acaso, a tradição municipal suíça preserva assembleias de cidadãos e instituições locais de participação.

NÃO BASTA DEVOLVER O PODER AO POVO. É PRECISO ORGANIZAR AS COMUNIDADES PARA QUE O POVO CONSIGA EXERCÊ-LO!

A PÁTRIA PRINCIPAL É A COMUNIDADE ONDE VIVEMOS

O estado, o país e até o continente podem ser pátrias maiores, úteis e necessárias. Devem ser amadas, cultivadas e fortalecidas.

Podemos amar nosso município, o Sul, o Brasil e até reconhecer o planeta como a grande pátria da humanidade.

Esses sentimentos não precisam competir entre si.

MAS NENHUMA DESSAS PÁTRIAS MAIORES DEVE SER COLOCADA ACIMA DA PÁTRIA PRINCIPAL: A NOSSA COMUNIDADE LOCAL!

É nela que compartilhamos os problemas cotidianos, construímos relações de confiança e sentimos diretamente as consequências das decisões políticas.

As pátrias maiores devem existir para realizar, em conjunto, aquilo que as comunidades não conseguem fazer sozinhas.

Esse é o sentido do princípio da subsidiariedade que encontramos na organização suíça.

E queremos desenvolver esse princípio ainda mais: que as uniões políticas acima dos municípios sejam construídas pela livre decisão das comunidades, com poderes limitados e responsabilidades claramente definidas.

NÃO QUEREMOS UMA PIRÂMIDE EM QUE O GOVERNO CENTRAL MANDA NOS ESTADOS, OS ESTADOS MANDAM NOS MUNICÍPIOS E OS MUNICÍPIOS MANDAM NO POVO.

QUEREMOS UMA SOCIEDADE EM QUE O POVO GOVERNA SUA COMUNIDADE, E AS COMUNIDADES SE UNEM PARA RESOLVER O QUE NÃO CONSEGUEM RESOLVER SOZINHAS!

O município deve conservar o poder de decidir tudo aquilo que estiver ao seu alcance.

Os governos maiores devem receber apenas as competências necessárias para cuidar dos problemas comuns.

O MUNICÍPIO NÃO EXISTE PARA SERVIR AO PAÍS. O PAÍS É QUE DEVE EXISTIR PARA SERVIR AOS MUNICÍPIOS!

QUANTO MAIS LONGE DO CIDADÃO, MENOR DEVE SER O PODER DE DECIDIR SOBRE SUA VIDA!

UMA SOCIEDADE PRÓSPERA NÃO SE CONSTRÓI FORTALECENDO O GOVERNO CENTRAL. CONSTRÓI-SE FORTALECENDO AS CÉLULAS QUE FORMAM SEU TECIDO SOCIAL: NOSSAS COMUNIDADES!

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Quatro princípios para construir uma sociedade livre e superior ao modelo suíço

A democracia como organização permanente do povo

Escala humana, poder distribuído e resistência à formação de oligarquias

A história política pode ser interpretada como uma disputa recorrente entre minorias organizadas e maiorias numericamente superiores, mas socialmente dispersas. Reis, aristocracias, burocracias, partidos, corporações e comandos militares não dominaram sociedades apenas porque possuíam mais integrantes, mas porque reuniam organização permanente, recursos, informação, disciplina e capacidade de coerção. O povo, ao contrário, frequentemente permaneceu dividido entre famílias, aldeias, profissões e interesses particulares, reunindo-se apenas de maneira ocasional diante de crises.

Gaetano Mosca transformou essa observação em uma teoria geral da classe governante:

“O domínio de uma minoria organizada sobre a maioria desorganizada é inevitável.”

Mosca não dizia que toda elite fosse igualmente cruel ou exploradora. Seu ponto era estrutural: cem pessoas coordenadas, obedecendo a um plano comum, podem impor sua vontade a milhares que agem separadamente. Em praticamente todas as sociedades politicamente organizadas, observava ele, aparece uma minoria que governa e uma maioria governada. Não é possível demonstrar cientificamente que isso ocorreu durante “quase 100% do tempo”, como se fosse uma porcentagem exata, mas a recorrência histórica da concentração do poder torna a afirmação uma tese política plausível: quando a maioria não possui organização própria e permanente, a direção da sociedade tende a ser apropriada pelos grupos mais organizados.

Robert Michels percebeu que esse fenômeno também ocorria dentro de organizações originalmente democráticas. Ao estudar partidos e sindicatos de massa, formulou sua conhecida “lei de ferro da oligarquia”:

“Quem diz organização diz oligarquia.”

À medida que uma organização cresce, precisa de dirigentes, especialistas, administradores, arquivos, recursos e canais de comunicação. Gradualmente, aqueles que controlam essas funções passam a controlar também a informação, a agenda, a interpretação das regras e o acesso aos cargos. Os representantes deixam de ser simples executores da vontade coletiva e podem converter-se em um grupo com interesses próprios. Michels exagerou ao tratar essa tendência como absolutamente inevitável, mas identificou um risco real: toda instituição democrática pode ser sequestrada pelos administradores que deveriam apenas servi-la.

A conclusão não deve ser que toda organização precisa ser abolida, pois uma maioria completamente desorganizada seria ainda mais vulnerável. O verdadeiro problema é construir uma forma de organização na qual os cidadãos permaneçam capazes de controlar os dirigentes, substituir os delegados, fiscalizar as decisões e impedir que qualquer função temporária se transforme em domínio permanente. A resposta à minoria organizada não é uma maioria sem instituições, mas uma maioria organizada em unidades menores, conectadas entre si e capazes de controlar os níveis superiores.

A concentração da força e o nascimento do Estado

Charles Tilly mostrou que a formação dos Estados europeus esteve profundamente ligada à capacidade de extrair recursos, manter exércitos, travar guerras e eliminar rivais internos:

“A guerra fez o Estado, e o Estado fez a guerra.”

Essa formulação não significa que todo Estado se resuma à violência, mas mostra que a centralização política esteve historicamente associada à centralização da coerção. Governantes que conseguiam arrecadar tributos, organizar forças permanentes e derrotar poderes locais adquiriam condições para expandir suas administrações. O poder militar financiava o Estado, enquanto o Estado ampliava os meios militares disponíveis ao grupo que o controlava.

Por isso, a distribuição da força sempre ocupou lugar central no pensamento republicano. Nicolau Maquiavel desconfiava de tropas mercenárias e de forças cuja fidelidade pertencesse a comandantes particulares. Ele considerava que uma comunidade livre deveria depender de seus próprios cidadãos, submetidos às leis da república:

“Os principais fundamentos de todos os Estados são boas leis e boas armas.”

A frase não afirma que as armas substituem as leis. Maquiavel acrescenta justamente que boas leis e boas forças públicas são inseparáveis. Uma república desarmada diante de mercenários, tropas estrangeiras ou comandantes privados não consegue preservar suas instituições; mas uma força sem limites legais também pode converter-se em instrumento de tirania. O equilíbrio republicano exige que a defesa pertença à comunidade política e que seus comandantes permaneçam sujeitos à lei, à fiscalização e à substituição.

James Madison, no Federalista nº 46, relacionou diretamente a resistência à tirania com a combinação entre cidadãos, governos locais e uma força cívica não separada da população:

“Cidadãos com armas nas mãos, lutando por suas liberdades comuns.”

A parte mais importante do argumento de Madison não é a arma isolada. Ele descreve cidadãos organizados por governos locais escolhidos por eles, conduzidos por pessoas provenientes das próprias comunidades e unidos por instituições nas quais confiavam. Para Madison, a barreira contra a usurpação era formada pela combinação de capacidade defensiva distribuída, governos subordinados próximos da população e organização política local. Um conjunto de indivíduos isolados não constituiria o mesmo contrapeso.

Portanto, a verdadeira questão democrática não é simplesmente saber quem possui instrumentos de força, mas quem organiza, comanda, limita e fiscaliza a força pública. Quando uma pequena casta controla sozinha os recursos, as leis, a administração e todo o aparato coercitivo, a igualdade formal do voto pode coexistir com uma enorme desigualdade real de poder. Quando a defesa está ligada à cidadania, distribuída territorialmente e submetida a instituições locais, torna-se mais difícil para uma única facção transformar o Estado em propriedade particular.

Robin Dunbar e a escala humana da confiança

A teoria de Robin Dunbar ajuda a compreender por que a organização popular se torna mais difícil à medida que as sociedades crescem. Em seu estudo sobre primatas, Dunbar identificou uma relação entre o tamanho relativo do neocórtex e a dimensão dos grupos sociais estáveis. Ao extrapolar essa relação para os seres humanos, chegou a uma média aproximada de 150 relações pessoais significativas e reciprocamente reconhecidas. Pesquisas posteriores propuseram círculos sucessivos próximos de 5, 15, 50 e 150 pessoas.

O número 150 não é uma lei biológica rígida, nem prova que uma comunidade de 149 pessoas será democrática e outra de 151 será oligárquica. A estimativa possui grande variação, depende da definição de relacionamento e foi contestada por pesquisadores que consideram imprecisa a extrapolação estatística para os humanos. Por isso, o número de Dunbar deve ser usado como referência de escala, não como fórmula constitucional obrigatória.

Sua importância política está em outro ponto. Em uma comunidade limitada, as pessoas conhecem a reputação umas das outras, percebem quem cumpre os compromissos, identificam abusos e conseguem conversar diretamente com aqueles que tomam decisões. A responsabilização pode apoiar-se parcialmente em relações pessoais. Em sociedades de milhões de indivíduos, essa capacidade desaparece: os cidadãos não conhecem pessoalmente os dirigentes, os administradores ou a maioria dos demais cidadãos. O sistema passa a depender de representantes, partidos, burocracias, meios de comunicação e especialistas.

Esses intermediários são necessários, mas são também os pontos nos quais o poder pode ser capturado. A lição extraída de Dunbar não é que as grandes sociedades sejam impossíveis, mas que elas não devem eliminar suas células sociais menores. Uma sociedade continental pode funcionar como rede de comunidades de escala humana, desde que cada nível inferior conserve poder real e que os níveis superiores recebam apenas competências claramente delegadas.

O tamanho ideal não precisa ser aplicado ao país inteiro, mas à célula fundamental na qual a confiança, a fiscalização e a participação permanecem humanas.

Os megassítios Cucuteni–Trypillia

Os megassítios da cultura Cucuteni–Trypillia, desenvolvidos sobretudo nas regiões atualmente pertencentes à Ucrânia, Moldávia e Romênia, fornecem um extraordinário exemplo arqueológico de crescimento urbano que não seguiu necessariamente o caminho clássico da monarquia centralizada. Entre aproximadamente 4100 e 3400 a.C., alguns assentamentos ultrapassaram cem hectares; os maiores alcançaram cerca de 320 hectares e possuíam milhares de casas dispostas em anéis, bairros e setores. Pesquisadores defendem que esses assentamentos representam uma trajetória de urbanização de baixa densidade diferente daquela observada posteriormente na Mesopotâmia.

Não é possível afirmar que fossem democracias no sentido ateniense ou moderno. Eles não deixaram constituições escritas, atas de assembleias ou descrições de suas instituições. A população permanente de cada local, a duração das ocupações e a natureza exata da autoridade continuam sendo debatidas. Entretanto, sua arquitetura oferece indícios relevantes sobre a organização social.

Os assentamentos possuíam grandes construções coletivas interpretadas como casas de reunião ou assembleia. Havia estruturas de diferentes tamanhos associadas a diferentes níveis da comunidade: vizinhanças, setores maiores e o assentamento como um todo. Em Maidanetske, muitas dessas construções foram distribuídas por um corredor circular público, visível e acessível a diferentes partes da população. Os pesquisadores da Universidade de Kiel interpretam essa disposição como uma arquitetura de integração e tomada de decisões em níveis sucessivos.

A estrutura espacial sugere uma organização aninhada: famílias formavam grupos residenciais; grupos formavam vizinhanças; vizinhanças formavam setores; e os setores participavam de instâncias que coordenavam o assentamento inteiro. Assim, milhares de pessoas poderiam cooperar sem precisar relacionar-se individualmente com todos os demais habitantes. Cada pessoa pertencia a círculos menores e estes se conectavam progressivamente às escalas maiores.

Isso é compatível com a interpretação política inspirada em Dunbar: uma grande sociedade não precisa funcionar como uma multidão indiferenciada. Ela pode surgir pela conexão de células menores, preservando identidade, participação e capacidade de fiscalização em diferentes níveis. As cidades Trypillia mostram que urbanização e centralização absoluta não são necessariamente o mesmo fenômeno. Um grande assentamento pode ser produzido pela cooperação entre unidades locais, e não somente pela submissão a um palácio, rei ou burocracia central.

As pesquisas de Kiel apresentam ainda uma descoberta especialmente importante para essa tese. Segundo os pesquisadores, nas fases iniciais existia ampla participação em processos políticos sequenciais, com casas de reunião em vários níveis. Posteriormente, muitas estruturas locais desapareceram, enquanto a tomada de decisões parece ter sido transferida para grupos menores e instâncias mais centrais. Essa centralização foi associada ao crescimento das diferenças sociais e precedeu a desintegração dos megassítios. Isso não prova que a centralização tenha sido a única causa do abandono, mas revela uma correlação histórica significativa entre perda das instâncias locais, concentração decisória, desigualdade e fragilidade social.

As comunidades cresceram enquanto conectavam seus centros locais; tornaram-se mais frágeis quando esses centros começaram a desaparecer.

Clístenes: transformar a mobilização popular em instituições

A experiência de Atenas mostra que uma vitória popular não é suficiente se o povo não conseguir transformar sua mobilização em instituições duradouras. Por volta de 508–507 a.C., Iságoras, apoiado pelo rei espartano Cleômenes, expulsou Clístenes e centenas de famílias e tentou dissolver o Conselho, entregando o governo a trezentos partidários. O Conselho resistiu, a população reuniu-se e Iságoras e seus aliados refugiaram-se na Acrópole. Os atenienses cercaram-nos durante dois dias e, no terceiro, permitiram a saída dos espartanos, chamando Clístenes e os exilados de volta.

Esse episódio demonstra que a democracia ateniense não surgiu apenas porque um legislador generoso concedeu direitos ao povo. Antes das reformas, a própria população mobilizada impediu que uma oligarquia apoiada por força estrangeira destruísse as instituições existentes. Contudo, Clístenes compreendeu que essa superioridade momentânea poderia desaparecer se as antigas famílias conservassem suas redes territoriais, clientelas e formas privadas de mobilização.

Sua resposta foi reorganizar a população. As quatro antigas tribos, fortemente ligadas ao parentesco e às famílias aristocráticas, foram substituídas por dez tribos novas. Cada uma combinava comunidades da cidade, do litoral e do interior, misturando habitantes de regiões diferentes e dificultando que um único clã dominasse uma tribo inteira. Segundo a Constituição dos Atenienses, atribuída à escola de Aristóteles, o objetivo era misturar a população para permitir que mais pessoas participassem do governo.

O Conselho passou a possuir quinhentos membros, cinquenta por tribo. As novas tribos serviram simultaneamente como unidades de participação cívica e como subdivisões de um exército de cidadãos submetido ao controle público. Isso reduziu a dependência de contingentes privados organizados por aristocratas e relacionou a mobilização militar às mesmas unidades pelas quais os cidadãos participavam politicamente.

Clístenes não criou células de exatamente 150 pessoas, mas aplicou um princípio comparável ao sugerido pelos megassítios e por Dunbar: uma população extensa deve ser organizada em unidades intermediárias que permitam participação, integração e mobilização coletiva. O cidadão não enfrentava sozinho o Estado central. Ele pertencia ao demo, à tribo, ao Conselho, à Assembleia e ao contingente cívico.

A força da reforma estava justamente na sobreposição dessas estruturas. A mesma divisão territorial que organizava a representação ajudava a organizar a defesa. A antiga elite perdia a possibilidade de monopolizar separadamente a política e a força. Em vez de destruir toda autoridade, Clístenes reorganizou-a de modo que nenhuma família pudesse controlar sozinha todas as partes da sociedade.

O povo não preserva o poder permanecendo continuamente reunido em revolta. Preserva-o transformando sua mobilização em instituições que continuam funcionando depois que a crise termina.

Elinor Ostrom e o governo policêntrico

A contribuição de Elinor Ostrom demonstra que comunidades podem governar recursos e instituições sem depender exclusivamente de privatização individual ou comando estatal central. Seus estudos identificaram comunidades que elaboravam regras próprias, fiscalizavam seu cumprimento, aplicavam sanções graduais, resolviam conflitos localmente e coordenavam diferentes níveis de decisão. Por seu trabalho sobre a governança dos bens comuns, Ostrom recebeu o Prêmio de Ciências Econômicas de 2009.

Sua visão é conhecida como governança policêntrica: diversos centros de decisão parcialmente autônomos coexistem, cooperam, experimentam soluções e controlam uns aos outros. O policentrismo não significa caos nem ausência de regras. Significa que não existe um único ponto no qual toda a autoridade precisa estar concentrada.

Essa teoria oferece uma resposta prática ao problema formulado por Mosca e Michels. Quanto mais funções são colocadas em um único centro, maior é o prêmio oferecido ao grupo que conseguir capturá-lo. Quem domina esse centro passa a controlar simultaneamente legislação, orçamento, fiscalização, nomeações e informação. Em uma ordem policêntrica, a captura de uma instituição não entrega automaticamente o controle de toda a sociedade.

Comunidades locais podem errar, produzir injustiças ou ser dominadas por grupos internos. Por isso, a descentralização precisa ser combinada com direitos fundamentais, transparência, possibilidade de recurso e níveis superiores capazes de impedir abusos graves. Ostrom não defendia uma romantização da aldeia, mas a adaptação das instituições à escala dos problemas e a distribuição das competências por vários níveis.

A Suíça como confederação de comunidades políticas

A Suíça moderna não é uma sociedade sem governo central. Ela possui Constituição federal, Parlamento, tribunais, administração e Forças Armadas nacionais. Sua diferença está em que o centro divide o poder com os 26 cantões e mais de duas mil comunas, cada qual preservando competências e instituições próprias. Os três níveis participam da produção das leis e da administração pública.

O princípio orientador é a subsidiariedade: uma função deve permanecer na menor unidade capaz de desempenhá-la adequadamente. A comuna exerce tudo o que puder; o cantão recebe aquilo que exige uma escala maior; e a Confederação assume apenas as tarefas que precisam de coordenação nacional. O poder superior não concede por generosidade toda a autonomia inferior; a estrutura constitucional reconhece que as unidades menores possuem uma esfera própria.

A democracia direta acrescenta uma segunda proteção. Os cidadãos podem propor alterações constitucionais por iniciativa popular, exigir que determinadas leis aprovadas pelo Parlamento sejam submetidas a referendo e votar obrigatoriamente sobre mudanças constitucionais. O eleitor suíço não participa apenas da escolha periódica dos governantes: conserva instrumentos para aceitar, bloquear ou iniciar decisões específicas.

O governo federal também é deliberadamente colegiado. Em vez de concentrar o Poder Executivo em uma única personalidade, a Suíça é governada por um Conselho Federal de sete membros, que decide coletivamente. A presidência é temporária e não transforma seu ocupante em chefe político superior aos demais conselheiros. Essa estrutura reduz a possibilidade de reunir governo, partido e administração em torno de um líder único.

Na defesa, a Constituição suíça estabelece que, em princípio, as Forças Armadas devem ser organizadas como uma milícia. Isso mantém uma conexão entre defesa nacional e cidadania, em vez de separar completamente a sociedade civil de uma casta militar permanente. Contudo, essa força não existe acima ou fora do Estado de Direito: permanece submetida à Constituição, às autoridades civis e às regras democráticas.

A proteção suíça contra a concentração não está em uma única instituição, mas na combinação entre:

comunas fortes, cantões autônomos, subsidiariedade, democracia direta, governo colegiado, representação territorial e defesa subordinada à cidadania.

Nenhum desses mecanismos impede absolutamente a formação de grupos de poder. Entretanto, juntos, eles multiplicam os pontos de fiscalização e tornam mais difícil que a captura de um único cargo ou órgão entregue a uma minoria o controle completo da sociedade.

A síntese: células fortes, centro limitado e povo organizado

Mosca e Michels explicam por que uma minoria organizada tende a dominar uma maioria dispersa. Tilly mostra como a centralização da guerra e da coerção participou da construção dos Estados. Maquiavel e Madison observam que uma sociedade politicamente soberana, mas inteiramente dependente de forças separadas dela, possui uma liberdade frágil. Dunbar mostra os limites cognitivos das redes pessoais. Os megassítios Trypillia revelam que populações numerosas puderam organizar-se por casas, vizinhanças, setores e assembleias. Clístenes transformou a mobilização popular em demos, tribos, Conselho e força pública cidadã. Ostrom demonstrou a viabilidade de instituições policêntricas. A Suíça mostra como esses princípios podem aparecer em um Estado moderno, federal e constitucional.

A conclusão não é que toda cidade deva ser dividida rigidamente em grupos de 150 pessoas nem que sociedades complexas possam dispensar toda coordenação central. A conclusão mais defensável é esta:

A célula básica do autogoverno deve permanecer pequena o suficiente para que participação, reputação e fiscalização não sejam completamente substituídas por burocracias distantes.

Essas células podem formar comunidades; comunidades podem formar municípios; municípios podem formar regiões ou cantões; e estes podem formar uma confederação. Cada nível superior deve coordenar aquilo que ultrapassa a capacidade dos níveis inferiores, sem absorver as competências que eles conseguem exercer diretamente.

O centro continua existindo, mas sua autoridade é delegada, limitada, fiscalizada e divisível. Ele não é o proprietário originário de todo poder, mas uma instituição construída pelas unidades que o compõem. As comunidades não recebem autonomia como favor do centro; elas transferem ao centro apenas aquilo que necessita de escala maior.

Nesse sistema, o povo não é uma massa composta por milhões de indivíduos isolados que se manifesta apenas nas eleições. Ele é uma rede permanente de comunidades organizadas, cada uma capaz de deliberar, fiscalizar, cooperar e substituir seus delegados. A maioria deixa de ser desorganizada e passa a possuir a mesma continuidade institucional que tradicionalmente proporcionou superioridade às elites.

A liberdade também não pode depender somente da distribuição material da força. A força sem regras pode produzir facções, conflitos privados e novos tiranos. Sua função democrática surge quando está integrada a comunidades políticas, submetida às leis, ao comando civil, à fiscalização pública e a vários centros territoriais de autoridade. O objetivo não é criar grupos armados independentes, mas impedir que uma facção transforme a força pública em propriedade particular.

A democracia não nasce simplesmente porque o povo vota, nem sobrevive apenas porque o povo venceu uma revolta. Ela existe quando os cidadãos conservam, todos os dias, instituições superiores às de qualquer facção que tente dominá-los.

Uma sociedade livre não é formada reunindo milhões de indivíduos impotentes sob um centro poderoso, mas conectando milhares de comunidades capazes de governar a si próprias.

O centro deve servir às células sociais; as células sociais não devem existir para alimentar o centro.

O povo permanece soberano quando controla as leis, fiscaliza os recursos, organiza suas comunidades e impede que qualquer grupo monopolize permanentemente a administração e a força pública.

Assim, o verdadeiro fundamento da democracia não é a ausência de organização, de governo ou de autoridade. É a construção de uma organização popular policêntrica, fundada na escala humana, conectada por instituições federativas e protegida contra a concentração. O problema histórico da liberdade não foi apenas retirar o poder de um rei, aristocrata, general ou partido. Foi impedir que, após cada vitória popular, uma nova minoria organizada ocupasse o mesmo centro e reconstruísse o domínio anterior.

A democracia duradoura começa quando o povo deixa de ser uma multidão ocasional e se transforma em uma rede permanente de comunidades autogovernadas.

Quatro princípios para construir uma sociedade livre e superior ao modelo suíço

A história política pode ser interpretada como uma disputa permanente entre minorias organizadas e maiorias numericamente superiores, porém socialmente dispersas. Reis, aristocracias, partidos, burocracias, corporações e comandos militares dominaram sociedades porque reuniram organização contínua, recursos, informação, disciplina e força coercitiva. O povo, ao contrário, frequentemente permaneceu dividido e somente se reuniu durante revoltas, guerras ou eleições. Como observaram Gaetano Mosca e Robert Michels, uma minoria organizada tende a dominar a maioria desorganizada, e até organizações inicialmente democráticas podem produzir novas oligarquias.

Para que uma sociedade permaneça verdadeiramente sob controle popular, não é necessário criar dezenas de regras desconectadas. Quase toda a estrutura pode ser resumida em quatro princípios fundamentais.

1. O povo deve permanecer permanentemente organizado em comunidades de escala humana

Uma maioria desorganizada será governada por uma minoria organizada.

O povo não pode existir apenas como uma multidão de indivíduos que escolhe representantes a cada quatro anos. Ele precisa estar organizado continuamente em comunidades locais capazes de deliberar, administrar recursos, fiscalizar dirigentes, resolver conflitos e agir coletivamente.

As pesquisas de Robin Dunbar sugerem que as redes pessoais estáveis possuem limites cognitivos, frequentemente representados por uma média próxima de 150 pessoas. Esse número não deve ser transformado em uma regra matemática rígida, mas serve como referência para a escala na qual confiança, reputação, responsabilidade e conhecimento pessoal ainda conseguem funcionar.

A unidade básica de uma sociedade livre deveria, portanto, ser uma célula comunitária de escala humana. Várias células formariam uma comunidade maior; várias comunidades formariam um município; municípios formariam regiões ou cantões; e estes formariam uma confederação.

Os megassítios Cucuteni–Trypillia indicam que milhares de pessoas puderam viver em assentamentos organizados por casas, vizinhanças, setores e edifícios coletivos de reunião. Isso sugere que grandes populações podem cooperar sem necessariamente serem submetidas a um único palácio, rei ou centro administrativo absoluto. A sociedade pode crescer pela conexão de unidades menores, e não pela destruição delas.

Uma sociedade livre não é formada reunindo milhões de indivíduos impotentes sob um centro poderoso, mas conectando milhares de comunidades capazes de governar a si próprias.

O objetivo não é reduzir toda a sociedade a grupos isolados de 150 pessoas. É garantir que todo cidadão pertença a uma unidade política real, na qual possa conhecer seus representantes, compreender as decisões e participar da fiscalização.

2. Todo poder superior deve ser delegado, limitado, transparente e revogável

O centro deve servir às comunidades; as comunidades não devem existir para alimentar o centro.

O poder deve nascer nas células sociais e subir apenas quando determinada função exigir uma escala maior. A comunidade resolve aquilo que consegue resolver. O município coordena o que ultrapassa as comunidades. A região assume o que ultrapassa os municípios. O governo nacional recebe somente as competências que realmente exigem alcance nacional.

Esse é o princípio da subsidiariedade, encontrado no federalismo suíço: nenhuma decisão deve ser tomada longe das pessoas quando puder ser resolvida adequadamente perto delas. Entretanto, uma sociedade ainda mais avançada deveria tornar toda delegação:

  • expressamente definida;
  • limitada a uma finalidade;
  • fiscalizada pelas comunidades;
  • sujeita a prazo e revisão;
  • revogável pelos níveis que a concederam.

O centro não seria o proprietário original de todo o poder. Seria uma instituição criada pelas comunidades para executar funções específicas. As comunidades não receberiam autonomia como concessão do centro; elas conservariam todo poder que não houvessem delegado.

Clístenes aplicou um princípio semelhante ao reorganizar Atenas. Depois que a população resistiu à tentativa de Iságoras e seus aliados espartanos de dissolver o Conselho, Clístenes transformou aquela mobilização popular em instituições permanentes. Reorganizou os cidadãos em demos e tribos, misturando regiões e enfraquecendo as antigas redes aristocráticas. As mesmas unidades organizavam participação política, representação e mobilização militar.

O povo não preserva o poder permanecendo continuamente em revolta. Preserva-o transformando sua mobilização em instituições que continuam funcionando depois que a crise termina.

A eleição de representantes continuaria existindo, mas não significaria a entrega integral da soberania. Leis importantes, novos impostos, endividamentos, alterações constitucionais e transferências de competências poderiam ser submetidos a referendos. Os cidadãos também teriam instrumentos para propor leis, revogar mandatos e retirar poderes anteriormente delegados.

O representante seria um mandatário temporário, nunca proprietário do cargo ou da soberania.

3. O povo deve conservar o controle político e institucional sobre as armas e a força pública

Um povo que cria as leis, mas não controla a força que as sustenta, possui apenas soberania formal.

Toda ordem política depende, em última instância, de quem possui capacidade para defender e fazer cumprir suas decisões. Quando armas, treinamento, inteligência, logística e comando militar ficam concentrados em uma casta separada da sociedade, essa casta pode deixar de servir ao povo e passar a servir a governantes, partidos, comandantes ou interesses próprios.

Charles Tilly mostrou que a formação dos Estados esteve relacionada à centralização da guerra, da tributação e da coerção:

“A guerra fez o Estado, e o Estado fez a guerra.”

Governantes que conseguiram arrecadar recursos e manter exércitos permanentes adquiriram condições para eliminar rivais locais, ampliar sua administração e concentrar cada vez mais poder. O aparato militar fortalecia o Estado, enquanto o Estado ampliava os recursos militares controlados pelo grupo governante.

Nicolau Maquiavel compreendeu que uma república dependente de mercenários, tropas estrangeiras ou comandantes particulares não permaneceria livre:

“Os principais fundamentos de todos os Estados são boas leis e boas armas.”

As armas não substituem as leis. A frase significa que as leis de uma comunidade não sobrevivem quando seus inimigos possuem superioridade militar absoluta, mas também que a força sem limites legais pode produzir uma nova tirania. A defesa precisa pertencer à comunidade e permanecer submetida às instituições públicas.

James Madison apresentou argumento semelhante ao imaginar a resistência contra uma possível usurpação:

“Cidadãos com armas nas mãos, lutando por suas liberdades comuns.”

O elemento principal do argumento não era a arma individual isolada. Madison descrevia cidadãos organizados territorialmente, ligados a governos locais e conduzidos por pessoas provenientes das próprias comunidades. A proteção estaria na combinação entre capacidade defensiva distribuída, organização política local e instituições controladas pela população.

Uma sociedade mais livre que a atual Suíça poderia preservar o princípio do cidadão-soldado, aperfeiçoando-o:

A defesa seria formada principalmente por cidadãos que continuam integrados à vida civil. O treinamento e a organização seriam públicos e constitucionais. O exército profissional existiria para funções especializadas, mas não poderia transformar-se em uma classe separada e superior à sociedade.

A organização defensiva acompanharia a organização federativa. Comunidades, municípios e regiões participariam institucionalmente da fiscalização, da composição e dos controles da defesa, sem constituir facções privadas ou forças partidárias.

Nenhum militar juraria lealdade pessoal a presidente, comandante, partido ou ideologia. Sua lealdade seria dirigida à Constituição, às comunidades e aos direitos fundamentais.

Nenhuma pessoa controlaria simultaneamente governo, orçamento militar, nomeações, inteligência e mobilização das tropas. O uso extraordinário da força dependeria de vários órgãos e teria prazo obrigatório de encerramento.

Ordens manifestamente ilegais não produziriam dever de obediência. Comandantes e autoridades responderiam pessoalmente por abusos.

O exército de uma democracia não deve observar o povo como uma força exterior. Deve nascer da sociedade, continuar ligado a ela e obedecer às instituições que ela controla.

Isso não significa transformar cada cidadão em combatente independente, incentivar grupos armados particulares ou substituir a justiça pela violência. Armas desconectadas da lei podem produzir facções e novos tiranos. O objetivo é impedir que uma pequena casta adquira superioridade militar absoluta sobre a sociedade.

A verdadeira superioridade popular não consiste em cada indivíduo possuir mais força que o Estado, mas em garantir que nenhuma força organizada possa tornar-se superior ao conjunto das comunidades e instituições democráticas.

4. Nenhum grupo pode controlar simultaneamente as leis, o dinheiro, a informação e a força

Quanto maior o poder concentrado em um único centro, maior o prêmio oferecido ao grupo que conseguir capturá-lo.

A descentralização territorial não basta quando o mesmo grupo consegue controlar os partidos, os contratos, a imprensa, os tribunais, os bancos públicos, a administração e as forças armadas.

Por isso, o poder precisa ser distribuído em várias dimensões:

  • territorialmente, entre comunidades, municípios, regiões e confederação;
  • politicamente, entre assembleias, representantes e votação direta;
  • financeiramente, por meio da autonomia material das comunidades;
  • administrativamente, impedindo burocracias incontroláveis;
  • informacionalmente, garantindo transparência e pluralidade;
  • militarmente, impedindo monopólios pessoais ou partidários do comando;
  • temporalmente, por mandatos curtos, rotatividade e expiração de poderes excepcionais.

Elinor Ostrom chamou de governança policêntrica a existência de vários centros de decisão parcialmente autônomos que cooperam, experimentam soluções e fiscalizam uns aos outros. A captura de uma instituição não deve entregar a um grupo o controle de toda a sociedade.

As comunidades também precisam possuir autonomia material. Quem depende financeiramente do governo central para todas as suas funções não possui autogoverno real. Uma parcela relevante dos tributos deve permanecer no local onde foi produzida, permitindo que os cidadãos relacionem arrecadação, gasto e resultado.

Toda decisão pública deve revelar quem propôs, quem aprovou, quanto custou, quem recebeu os recursos e quais resultados foram alcançados. Nenhum povo consegue controlar aquilo que não consegue enxergar.

A descentralização, entretanto, não pode justificar abusos locais. Direitos fundamentais, devido processo, liberdade de expressão, liberdade de associação, proteção das minorias e possibilidade de recurso precisam limitar todos os níveis de poder. Uma comunidade também pode ser capturada por famílias, empresas, líderes ou facções. Por isso, os diferentes centros devem limitar e fiscalizar uns aos outros.

A fórmula completa

Os quatro princípios podem ser resumidos em uma única fórmula:

O povo deve permanecer organizado em comunidades de escala humana; essas comunidades devem formar uma federação na qual todo poder superior seja delegado e revogável; a força pública deve nascer da cidadania e permanecer subordinada a ela; e nenhuma pessoa ou instituição pode controlar simultaneamente as leis, os recursos, a informação e as armas.

A Suíça já combina comunas fortes, cantões autônomos, democracia direta, governo colegiado, subsidiariedade e sistema de milícia. Uma sociedade ainda mais avançada poderia aprofundar esses princípios, tornando a delegação mais reversível, fortalecendo as células comunitárias, ampliando o controle direto sobre os representantes e impedindo de forma mais rigorosa a separação entre sociedade civil e poder militar.

Comunidades de escala humana para organizar o povo.

Federação e democracia direta para controlar os governantes.

Defesa cidadã para impedir o monopólio da força por uma casta.

Fragmentação do poder para que nenhuma vitória de uma facção signifique a conquista de toda a sociedade.

A democracia não nasce apenas porque o povo vota e não sobrevive apenas porque venceu uma revolução. Ela existe quando os cidadãos conservam, todos os dias, instituições mais fortes, mais organizadas e mais permanentes do que qualquer facção que tente dominá-los.

Armas sem leis produzem facções. Leis sem força popular produzem submissão. Uma sociedade livre depende de comunidades organizadas, boas leis e uma força pública que jamais deixe de pertencer à cidadania.

Fontes

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  2. On Organizations and Oligarchies: Michels in the Twenty-First Century. eCommons, Cornell University.
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  15. Political system. About Switzerland.
  16. Direct Democracy. About Switzerland.
  17. Federal Constitution of the Swiss Confederation. Fedlex.